Diversidade linguística dos imigrantes…

Imagem em Destaque
Diversidade linguística dos imigrantes…


 

O conhecimento da língua do país de acolhimento tem sido assumido como indispensável à integração dos imigrantes (veja-se os Princípios Básicos Comuns da União Europeia), assumindo-se, por outro lado, o respeito pela língua materna dos imigrantes como outro princípio estruturante de políticas de vários países de acolhimento. Muitos governos declaram que a aprendizagem da língua do país é um dos objetivos principais da sua política de integração e assumem este compromisso promovendo cursos de aprendizagem nesse âmbito. No entanto, apesar deste crescente investimento na promoção de cursos de aprendizagem de língua e deste reconhecimento de que o domínio da língua é um fator importante para a integração dos imigrantes, pouco se tem aferido acerca dos beneficiários desses programas de aprendizagem de língua e acerca das competências linguísticas dos imigrantes. O PISA (Programme for International Student Assessment) da OCDE disponibiliza um retrato da performance em leitura dos jovens, mas poucos sistemas permitem avaliar as competências linguísticas dos adultos.
 


O estudo da OCDE Indicators of Immigrant Integration (2015), recorrendo a informação de 2012 analisada no PIAAC (OECD Programme for the Internacional Assessment of Adult Competencies) sobre as línguas de origem e a línguas faladas em casa, destaca que nos 20 países onde há dados disponíveis, dois em cada três imigrantes tiveram como língua de origem (aquela que aprenderam na infância) uma língua diferente da língua do país de acolhimento. Esta proporção é maior nos países de acolhimento onde a língua oficial é pouco falada fora das suas fronteiras (e.g., Itália e Alemanha). Por contraste, em países como a Espanha ou a Irlanda mais de metade dos imigrantes reportam que a língua do país de acolhimento foi uma das línguas que aprenderam na sua infância.

O mesmo relatório da OCDE realça que na maioria dos países analisados são poucos os imigrantes que falam a língua do país de acolhimento em casa. A exceção surge na República Checa e na Eslováquia, refletindo uma maioria de imigrantes residentes oriundos da antiga Checoslováquia. Na Holanda, França e Alemanha cerca de 50% dos imigrantes que não tiveram como língua materna (ou não aprenderam na infância) a língua do país de acolhimento falam esta língua em casa. Esta elevada proporção pode ser atribuída à longa experiência imigratória desses países (com um elevado número de imigrantes que já estão estabelecidos no país há muitos anos) e ao elevado número de casais mistos. Em França e na Holanda para esta proporção muito contribui ainda a elevada presença de populações imigrantes oriundas de antigas colónias desses países. Pelo contrário, a maioria dos imigrantes dos Estados Unidos, Canadá, Bélgica e Irlanda que não tiveram como língua materna a língua do país de acolhimento continuam a falar a sua língua de origem em casa.

O Immigrant Citizens Survey (2012) demonstrou que, em geral, os imigrantes falam mais línguas que a média dos residentes dos países onde vivem. Esse facto é visível em países como Portugal, Hungria e Itália, onde se observa que os imigrantes tendem a falar mais línguas que a média dos residentes. Em contraste, na Bélgica a população autóctone fala mais línguas que os imigrantes residentes no país.

Novamente o estudo da OCDE Indicators of Immigrant Integration (2015), tendo por referência os países para os quais há dados, mostra que entre as línguas aprendidas na infância por imigrantes de línguas estrangeiras (inquiridos com idades entre 16 e 64 anos) destacam-se o espanhol castelhano (32,4%), chinês (6,2%), árabe (6,1%), romeno (3,3%), polaco (3,1%) e português (2,8%, correspondendo a mais de 1 milhão de imigrantes que fala português em países onde a língua de acolhimento é diferente do português).

Se a análise se afunilar para apenas os 18 países da Europa com dados disponibilizados neste relatório, destacam-se, porém, outras línguas mais faladas entre os imigrantes, refletindo diferentes fluxos migratórios nos vários continentes. Nesse grupo a língua portuguesa é a terceira língua mais falada pelos imigrantes residentes, contemplando um universo de cerca de 900 mil pessoas (6,1%). A primeira língua mais falada é o árabe (13,4%) e a segunda o romeno (8,4%). A seguir ao português destaca-se a língua polaca (5,8%). Como é realçado neste relatório da OCDE, deve atender-se a que as migrações intracomunitárias tornaram algumas línguas (particularmente o romeno, o polaco e o português) nas mais faladas pelos imigrantes residentes na europa comunitária, pese embora no caso do português deva destacar-se também o contributo das comunidades imigrantes de origem do Brasil e dos PALOP em alguns países europeus.
 


O Eurobarómetro Especial (386 de março de 2012) acerca de Europeans and their languages realçava também a diversidade de línguas faladas no espaço europeu, correspondendo em 2012 a 23 línguas oficiais reconhecidas, 60 línguas indígenas e regionais, e muitas outras línguas e dialetos falados pelas comunidades migrantes. Como era realçado nesse relatório, embora a União Europeia tenha uma influência limitada na promoção do conhecimento de línguas, tem recorrentemente recomendado a diversidade linguística e a promoção da aprendizagem de línguas “for reasons of cultural identity and social integration and cohesion, and because multilingual citizens are better placed to take advantage of the economic, educational and professional opportunities created by an integrated Europe.” (p. 2). Embora este Eurobarómetro se foque apenas nos nacionais dos Estados-membros (não integrando a diversidade linguística entre as populações imigrantes), algumas perguntas que focam atitudes (QE7) mostram-se interessantes para analisar aqui. Em particular os resultados que evidenciam a defesa de que todas as línguas faladas na União Europeia (UE) devem ser tratadas de igual modo (QE7.6) e de que todos na UE devem ser capazes de falar pelo menos uma língua para além da sua língua materna (QE7.4). É nesta última questão onde os países europeus mais se dividem, posicionando-se Portugal de forma bastante favorável ao multilinguismo, com mais de 80% dos respondentes a concordar totalmente ou a tender a concordar que todos na UE deviam ser falantes de pelo menos uma língua para além da sua língua materna. Neste inquérito a Finlândia surge como o país que mais respondentes discordam totalmente ou tendem a discordar (63%) com a aprendizagem de uma língua para além da materna, tendo apenas 37% dos respondentes defendido o multilinguismo.