Há mais de quatro mil muçulmanos a residir na região portuense

Há mais de quatro mil muçulmanos a residir na região portuense

Por Isabel Forte
21 de Março de 2004, Jornal de Notícias 

 

Grande parte dos mais de quatro mil muçulmanos residentes no Grande Porto são oriundos de Moçambique. Foram, aliás, os primeiros a chegar. Como Abdul Rehman Mangá, o presidente do Centro Cultural Islâmico do Porto (CCI). "Estou cá há 18 anos e assisti à vinda de outros irmãos da Guiné, do Bangladesh, do Senegal e, ultimamente, à dos irmãos árabes". Sobretudo marroquinos e paquistaneses.
Ao número vão-se acrescentando, ainda, os vários portugueses que se têm convertido, por opção, ao islamismo. 

Grande parte dos mais de quatro mil muçulmanos residentes no Grande Porto são oriundos de Moçambique. Foram, aliás, os primeiros a chegar. Como Abdul Rehman Mangá, o presidente do Centro Cultural Islâmico do Porto (CCI). "Estou cá há 18 anos e assisti àvinda de outros irmãos da Guiné, do Bangladesh, do Senegal e, ultimamente, à dos irmãos árabes". Sobretudo marroquinos e paquistaneses.
Ao número vão-se acrescentando, ainda, os vários portugueses que se têm convertido, por opção, ao islamismo.

Os primeiros imigrantes muçulmanos que pousaram as malas no Porto, provenientes de países de língua portuguesa, estabeleceram-se rapidamente na cidade. "Antes da independência das ex-colónias, haveriam uns 50, aqui, a estudar". E por aqui acabaram por ficar. Muitos são economistas, como Abdul, bancários, comerciantes ou operários civis. Mas os árabes, confessa Rehman, têm um pouco de dificuldade em se inserir, em parte por causa da língua. "Geralmente, vêm à procura de trabalho, de documentos, são basicamente uma comunidade itinerante". Um pouco afastada, mas pacífica. "Os que vêm do Bangladesh têm mais facilidade em resolver os problemas entre eles". Já os outros, sublinha, "têm as portas do centro abertas para os ajudar à integração".

De facto, na Rua do Heroísmo, onde funciona a mesquita e o CCI, é uma roda viva de gente que entra e sai. Uns usam longas vestes brancas, outros passam completamente despercebidos. Mas o olhar não mente. É sempre escuro, profundo, fugidio. As mulheres, poucas, tapam os contornos do corpo com roupas modernas e os cabelos com um lenço comprido. Já ninguém nota, ri-se Adélia Martins, carregada com dois valentes sacos de compras. "Passo tantas vezes aqui que nem reparo, mas parece gente pacífica", atira, apenas com o olhar curioso na fila de sapatos à entrada da mesquita. "Não sei para que é aquilo, eles que se entendam que são crescidos".

Abdul está bem estabelecido e integrado no Porto. É casado, tem filhos, um bom emprego. A sua função, agora, é auxiliar todos os outros que procuram a região em busca de trabalho. "O povo português é muito colaborante", afirma. "Costuma receber bem os que vêm de outros países".

 

Mesquita na Rua do Heroísmo serve de ponto de encontro religioso e local de apoio à integração no país 

Hamid, 24 anos, marroquino, entra às 12 horas em ponto na mesquita Hazrat Bilal, na Rua do Heroísmo, no Porto. Descalça os sapatos, alinha-os junto da parede, deposita um saco com fruta numa prateleira à entrada e desce as escadas. Para começar a oração tem de estar puro. Gira a torneira, cumpre o ritual da lavagem. Pés, mãos, cara, tudo tem de estar bem limpo, três vezes seguidas. Sobe devagar, dobra-se sobre a cintura, virado para Meca, ajoelha-se, estende os braços no chão, volta a levantar-se. Há-de fazê-lo mais vezes. E depois há-de sentar-se em oração. "Vim da Póvoa de Varzim, vendo tapetes", diz, num português quase imperceptível. "Gosto daqui, portugueses são simpáticos, são muito bons, mas quero regressar".

Amadu Camará, o imã da mesquita, observa o corridinho: "A oração começa às 13 horas, muitos vêm antes para rezar".
Amadu tem 50 anos e é guineense. Estudou na Mauritânia, licenciou-se em Teologia e Relações Públicas no Egipto. "Este lugar é limpo e o corpo de um muçulmano também tem de estar limpo para a oração". Que à sexta-feira ganha mais importância, por ser o dia sagrado do Islão. "Aqui não temos ícones", explica o imã. "A nossa fé diz que existe um só Deus, digno de ser adorado, e Maomé é o seu profeta", sublinha, enquanto admira o espaço ainda vazio.
"A oração demora cinco minutos, geralmente sobre temas actuais". Ultimamente, refere, tem sido sobre a violência. "O Islão não é violência, é paz. Nem a política nem o petróleo vão abalar a união do Islão". Mais, insiste: "Querem quebrar esta união, não aceitamos, somos irmãos, de bom comportamento". O problema, sustenta, é a Palestina: "Toda esta violência tem origem na Palestina, que luta contra os ocupantes na terra deles".

Jibran Mustafá, 22 anos, acaba de entrar. Tem o cabelo ruivo e imensas sardas no rosto: "Sou de Marrocos". Tenta quebrar o equívoco. "Estou cá há três anos, na Póvoa, a vender tapetes". Seguem-lhe as pisadas mais uma série de homens. São quase 13 horas. Entram em grupos, uns com as mãos pintadas com restos de tinta, outros mais sofisticados. Todos, sem excepção, depositam o calçado no hall. Lavam-se, sobem, oram. Espalha-se pelo local um murmúrio estranho, semelhante a um cantar baixinho. "Lêem o Alcorão", diz o imã, que já os conhece a todos. "Costumam trazer estes sacos com fruta, que é partilhada entre todos", olha para um recém-chegado, que saca uma banana antes de entrar.

E mulheres? "Costumam orar em casa, mas temos um lugar onde podem orar, porque não podem ficar misturadas com os homens". Aponta para uma divisória a um canto da sala, a lembrar um biombo com buracos. "Não deve haver tentação", argumenta."Se um homem ouvir uma mulher, fica desatento, começa a pensar se ela é bonita. Sem mistura, a oração decorre bem". Lá dentro mais de uma dezena de homens estão sentados. Aguardam pelo imã.

 

Notícia do Jornal de Notícias, http://jn.sapo.pt