HIV/Sida: Novas infecções na Europa Ocidental (dossier do Jornal Púbico)

HIV/Sida: Novas infecções na Europa Ocidental (dossier do Jornal Púbico)

O Jornal Público publica um conjunto de notícias por altura da Conferência Europeia sobre o HIV/Sida, que decorreu em Dublin, chamando a atenção para a sua incidência entre a população imigrante: "Os dados da Onusida parecem tornar evidente que as acções de prevenção em vários países da Europa Ocidental perderam força e não estão a acompanhar a propagação do vírus em algumas franjas populacionais mais marginalizadas, como é o caso dos imigrantes ou refugiados." 

 

Sampaio Propõe Criação de Agência Europeia para a Sida 
Por JOANA FERREIRA DA COSTA, em Dublin
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004

O Presidente da República, Jorge Sampaio, propôs ontem, em Dublin, a criação de uma Agência Europeia para a Sida, que coordene as políticas de combate à doença numa Europa cada vez mais alargada. O lançamento de uma campanha dedicada ao HIV durante o Euro 2004 foi outra das propostas discutidas por Sampaio.

Na abertura da primeira grande conferência europeia dedicada ao HIV, promovida pela presidência irlandesa da UE, o chefe de Estado falou da necessidade de centralizar estratégias para responder aos desafios da entrada de dez novos países do Leste para a comunidade, como a Estónia ou a Letónia, onde a infecção com o vírus da sida tem crescido a um ritmo assustador, atingindo sobretudo a população adolescente ou jovem (ver texto nestas páginas).

"Precisamos de uma agência, equivalente à que existe para a toxicodependência, que centralize as questões e estabeleça estratégias comuns a todos os países, fazendo do combate à doença uma prioridade", frisou Jorge Sampaio. "O apoio aos Estados-membros e a cooperação entre países terceiros e as organizações não governamentais devem ser os dois principais objectivos desta nova agência europeia", explicou aos representantes de 55 países reunidos em Dublin.

O presidente português, o único chefe de Estado convidado a participar no encontro que hoje termina, dizia ontem aos jornalistas sentir-se muito só na promoção do combate à doença. "Tenho uma sensação de solidão. Na Assembleia Especial das Nações Unidas [em 2001] o único chefe de Estado europeu era eu. E hoje continuo a ser eu", afirmou. "Temos 40 milhões de infectados em todo o mundo. Estamos perante um problema de civilização do mais grave que há. Não compreendo que este tema não seja uma preocupação [de todos os responsáveis políticos]."

A urgência de colocar o combate e prevenção da sida nas agendas políticas europeias, que baixaram os braços na prevenção e hoje assistem a uma nova subida das infecções, foi reafirmada ao longo de todo o dia de ontem, esperando-se hoje a assinatura de um compromisso político, a Declaração de Dublin, que estabelece metas precisas para a redução do contágio e para o acesso ao tratamento no Leste Europeu e na Ásia Central. Quer, por exemplo, até 2010 eliminar o HIV entre as crianças do Leste ou garantir que 80 por cento dos toxicodependentes têm acesso a programas de troca de seringas.

 

Euro 2004 será usado para campanha

Ontem o primeiro-ministro irlandês, Bertie Ahern, e o director executivo da Onusida, Peter Piot, resumiam os desafios que a Europa Ocidental enfrenta com o alargamento ao Leste, onde é urgente travar a epidemia. Garantir o acesso a informação e meios de prevenção, sobretudo entre a população jovem ou marginalizada, alargar o tratamento a todos os doentes, obter financiamento que garanta o combate à doença.

Mas é com cepticismo que algumas organizações não governamentais vêem a aplicabilidade deste plano, dada a falta de financiamento para o fundo global de combate à doença. Ontem, o músico e activista Bob Geldof fazia eco destas críticas e afirmava que o Leste precisa "de acções mais urgentes e imediatas do que aquelas que a linguagem neutral da declaração sugere" e que a angariação e desbloqueamento dos fundos continua a ser problemática.

O Presidente português quer aproveitar o Euro 2004 para lançar uma campanha de prevenção da doença. Foi essa a proposta deixada por Sampaio no encontro que manteve com Richard Seachman, director do Fundo Global para a Luta contra a Sida, Tuberculose e Malária.

Portugal está, aliás, em falta no que respeita à angariação de fundos para a luta contra a doença. Em 2003 o Governo comprometeu-se a pagar um milhão de dólares (800 mil euros) para o Fundo mas até agora só foram desbloqueados 400 mil. O ministro da Saúde, Luís Filipe Pereira, que também participou no encontro, garantia aos jornalistas que este ano serão desmobilizados os 600 mil dólares restantes, pagos "em comum" com o Ministério das Finanças.

 

 

Os Números Globais da Epidemia 
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004

Pessoas a viver com sida

Total: 40 milhões

Adultos: 37 milhões

Crianças: 2,5 milhões

Novas infecções em 2003

Total: 5 milhões

Adultos: 4,2 milhões

Crianças com menos de 15 anos: 700 mil

Mortes em 2003

Total: 3 milhões

Adultos: 2,5 milhões

Crianças com menos de 15 anos: 500 mil

 

Fonte: Onusida, dados de Dezembro de 2003

 

 

Novas Infecções na Europa Ocidental 
Por J.F.C.
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004

O número de pessoas que vivem com o vírus da sida na Europa Ocidental continua a crescer, não só com o aumento da taxa de sobrevivência garantida pelo tratamento mas também com o aumento das novas infecções com o HIV, entre 30 mil a 40 mil no ano passado.

Os dados da Onusida parecem tornar evidente que as acções de prevenção em vários países da Europa Ocidental perderam força e não estão a acompanhar a propagação do vírus em algumas franjas populacionais mais marginalizadas, como é o caso dos imigrantes ou refugiados.

Nos últimos seis anos, as taxas de novas infecções com o vírus da sida cresceram em países como a Irlanda (234 por cento), Reino Unido (111 por cento), Finlândia (83 por cento) e Noruega (74 por cento).

Na maioria dos países ocidentais as relações heterossexuais são a principal forma de propagação da sida, com as mulheres a registarem uma taxa crescente de infecção.

A análise global feita pela ONU revela que outra das tradicionais formas de contágio com o vírus HIV, a partilha de agulhas e seringas infectadas, tem vindo a diminuir no ocidente. Em Portugal, Espanha e França, a utilização de drogas injectáveis continua a ser uma importante forma de infecção. Já na Alemanha, Dinamarca, Grécia e Holanda as relações homossexuais mantêm-se como uma das principais causas de novos casos da doença.

 

 

A Escalada no Leste 
Por J.F.C.
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004

A Europa do Leste é a região do mundo com a maior taxa de crescimento de novos casos de sida. Em apenas alguns anos são já 1,2 milhões a 1,8 milhões de pessoas que vivem com a doença nesta zona do globo. Anualmente, entre 180 mil e 280 mil pessoas são infectadas com o vírus do HIV.

As regiões mais afectadas são a Rússia, Ucrânia, Estónia e a Letónia, mas o HIV continua a espalhar-se na Moldávia, Cazaquistão e Bielorrússia. As estimativas apontam para que um milhão de pessoas entre os 15 anos e os 49 viva com o HIV na Rússia.

O número brutal de infecções entre pessoas jovens é, aliás, uma característica desta região. Mais de 80 por cento dos infectados com o vírus da sida ainda não completaram 30 anos, quando na Europa ocidental esta percentagem ronda os 30 por cento.

Na Bielorrússia, 60 em cada 100 seropositivos têm entre 15 e 24 anos. Na Ucrânia, um quarto dos portadores de HIV tem menos de 20 anos. No Cazaquistão e na Quirguízia, cerca de 70 por cento dos infectados têm menos de 30 anos.

A situação agrava-se porque grande parte das novas infecções devem-se à utilização de drogas injectáveis. Na Rússia, a situação é particularmente grave: são muitos os jovens que regular ou esporadicamente se injectam. Não é por isso de estranhar que 80 por cento dos toxicodependentes com sida tenham menos de 30 anos. No total, as estimativas apontam para que 25 por cento dos utilizadores de droga na Europa do Leste e na Ásia Central tenham menos de 20 anos.

 

 

Duas Histórias Que Se Tornaram Numa 
Por POR CATARINA GOMES (TEXTO) E MIGUEL MADEIRA (FOTO)
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004

A conversa primeira foi entre Dona Rosário, ajudante domiciliária de doentes com sida, e Armando (nome fictício). "Eu disse assim: 'Vou-lhe arranjar uma namorada que é sua conterrânea'", começou Dona Rosário já depois de maturar no conveniente da união. "Eu estou infectado, ela vai aceitar?", duvidou Armando. "Ela também tem a sua doença!", rematou de uma vez Dona Rosário, decidida "a atingir aquela meta".

Por ser assim - uma união predestinada por Dona Rosário -, o "calhou" que Alda (nome fictício) usa para falar de como ambos, idos de Luanda-Angola, calham hoje viver na mesma casa, em Belas, tomam regularmente a medicação anti-retroviral às mesmas horas, não soa a verbo acertado. Alda, de 40 anos, e Armando, de 41 anos, são angolanos, doentes com sida que recebem apoio domiciliário prestado pela Associação de Jovens Promotores da Amadora Saudável (AJPAS).

A Onusida considera que a população imigrante é actualmente uma das mais vulneráveis à infecção devido às barreiras culturais, marginalização, falta de recursos económicos e dificuldade de acesso aos cuidados de saúde.

Com o correr da conversa, percebe-se que Dona Rosário vai além do seu papel de ajudante domiciliária, até de "casamenteira", toma também a seu cargo a tarefa de completar os vazios das duas histórias, que começou a acompanhar há três anos e que há uns meses a esta parte transformou numa história a dois. Dona Rosário é guineense, tem 50 anos e é uma das 14 ajudantes domiciliárias da AJPAS que presta apoio a 105 doentes infectados nos concelhos da Amadora e Sintra, 36 deles imigrantes.

Neste momento, Armando, que veio para Portugal há 12 anos, está a contar como ficou infectado. "Eu era um elemento sem complexos, tinha aventuras com negras, brancas..." Dona Rosário inicia aqui o preencher de silêncios, tornando mais rigorosa uma história que dá impressões de conhecer melhor que os próprios: "Ele contou-me que nos seus tempos de 'disc-jockey' chegou a ter 15 namoradas", por isso é natural que não saiba nem como nem quando foi infectado, explica, com um tom um tudo-nada moralista. Clarificado o pormenor, Armando justifica-se: "Eu era um elemento... era um zé-ninguém, era jovem, mais atraente", episódios "antes da concertação", como chama à acção de Dona Rosário. "Ele contou-me, não tem maka [problema]", junta Alda, dispensando as justificações.

Com Alda foi diferente. Em Luanda, enterrou o marido, que faleceu de doença desconhecida, e foram precisos mais dois anos em cima da morte para começar a ter queixas de saúde de uma maleita que tardava a ser identificada. "Ele ficou a saber que tinha sida e não me disse nada. Morreu disso", conta, com uma revolta que não esmoreceu.

Quando ainda estava em Angola, começaram por lhe diagnosticar paludismo; seguiu-se um "olhe que é malária", mas os suores e o cansaço não passavam. Já em Portugal, para onde veio em 2003, falaram-lhe de sida, a primeira vez que ouviu pronunciada a palavra e explicada a doença.

Em casa do irmão, onde estava alojada, a palavra já era familiar, da rádio e da televisão, e a reacção foi pronta. Foi o irmão que impediu que fosse expulsa pela sua mulher e ali permanecesse até conhecer aquele que é hoje o seu companheiro. Mas nesta casa tinha uma vida feita de restrições: uma cadeira especial para ela na sala, a sobrinha estava proibida de entrar no seu quarto, com medo do contágio. "Qualquer pessoa de um de nós pode apanhar isso, acontece", diz em jeito de quem vem repetindo esta frase antipreconceito vezes de mais.

É verdade que Dona Rosário viu nesta união um lado pragmático, sempre se poupam deslocações: ela vivia lá longe e agora tem reunidos dois utentes na mesma visita. Mas as tarefas de Dona Rosário como ajudante domiciliária deram uma reviravolta que exige novas competências. De cozinheira, mulher a dias, controladora das tomas da medicação, ganhou papel de conselheira dos que ajudou a juntar: "Têm camisinhas?" - "Agora a minha tarefa principal é fazer usar camisinha", esclarece. Volta a perguntar.

Ambos estão infectados com o vírus da sida, mas existe o perigo de reinfecção. E há também o risco de terem filhos. "É preciso ter cuidado com os filhos indesejáveis", repete. Armando e Alda anuem com a cabeça ao que é preciso evitar filhos indesejáveis, à necessidade de usar camisinhas, mas Dona Rosário já lhes ouviu frases menos obedientes que a fazem redobrar a atenção, "ele não quer, a mim já me disse: 'Se me aparecerem filhos...'", Alda solta um "se Deus ajudar, o Armando gostava [de ter filhos]". "Os filhos podem negativar, mas vocês não têm dinheiro, emprego nem forças para ter um filho", reforça.

Ele era pedreiro, mas "já não dá, com estas forças", vivem com o rendimento mínimo de inserção a que tem direito. Alda está à espera "há... [faz as contas com os dedos] um ano pela sua certidão de narrativa simples para poder ter acesso a ser portuguesa", por parte do pai. Apesar de em Angola trabalhar nos serviços de identificação, a documentação tarda em chegar, o que lhe veda qualquer hipóteses de conseguir uma ocupação.

Terminada a visita ao casal, Dona Rosário desce com bonomia as escadas da habitação social onde os dois vivem e fala do muito progresso a que vem assistindo. É verdade que as transfusões de sangue de Alda resolveram-lhe as anemias, deram-lhe forças perdidas, ela "já não está tão magrinha, tão dependente", mas em geral verifica que nos dois "o moral está alto": "As coisas melhoraram", reconhece. Dona Rosário também reparou que no centro da sala de Alda e Armando sobressai uma propositada homenagem aos seus esforços - a imagem de Nossa Senhora do Rosário está mesmo por cima da televisão.

 

Notícias do Jornal Público, http://www.publico.pt


Nota: O estudo "Infecção VIH e Imigração em Portugal", desenvolvido por Domitília Faria (Assistente Hospitalar de Medicina Interna) e Helena Ferreira (Assistente Graduada de Saúde Pública), encontra-se disponível aqui.