Imigrantes brasileiros sonham regressar

Imigrantes brasileiros sonham regressar

31 de Março de 2004, Portugal Diário 


Traçado retrato da imigração daquele país para Portugal entre 1998 e 2003.

Os brasileiros que imigraram para Portugal entre 1998 e 2003 são maioritariamente jovens, homens, trabalham no comércio e restauração, estão ilegais e têm como objectivo regressar ao Brasil, conclui um estudo a apresentar hoje. 

De acordo com o estudo «A segunda vaga de imigração brasileira para Portugal», 77 por cento dos brasileiros que chegaram ao país depois de 1998 tem menos de 35 anos, sendo 64 por cento do sexo masculino e 36 por cento do sexo feminino.

O mesmo estudo, que tem por base 400 entrevistas realizadas a brasileiros residentes nos distritos de Lisboa e Setúbal, refere que 42,6 por cento dos imigrantes trabalha na área do comércio e restauração, seguindo-se o sector operário (32 por cento), destacando-se dentro deste a construção civil com 27,8 por cento.

Cerca de oito por cento dos inquiridos estava em situação de desemprego quando o estudo foi realizado, entre 23 de Junho e 7 de Julho do ano passado.

Relativamente ao estatuto de residência em Portugal, os dados recolhidos apontam para 36 por cento de «indocumentados», encontrando-se os restantes com autorização de permanência.

A intenção de regressar ao país é manifestada pela maioria dos inquiridos, embora em períodos diferentes. Enquanto 31,2 por cento diz querer retornar ao Brasil de imediato, para 45 por cento o objectivo é «voltar logo que consiga juntar umas poupanças» e 13,5 por cento só pensa regressar ao Brasil quando o país «estiver em melhor situação económica».

O inquérito indica igualmente que 61,8 por cento dos imigrantes enviam regularmente poupanças para o Brasil, dos quais 37,3 por cento o faz mensalmente e 24 por cento pontualmente. A maioria envia mais de 300 euros por mês para o país de origem.

Em relação às condições de vida da segunda vaga de brasileiros em Portugal, os imigrantes estão satisfeitos com o rendimento mensal (77,1 por cento), existindo uma opinião negativa quanto à habitação (44,5 por cento) e ao acesso aos sistemas de saúde (71,8 por cento).

A insatisfação é também sentida nos momentos dedicados ao lazer com 64,8 por cento dos imigrantes a considerarem que são piores do que no Brasil. «Encontrar a turma do Brasil» e «ver televisão» são as opções favoritas para os tempos livres.

Apesar de 44,8 por cento considerar que foi bem recebido nos locais de trabalho e onde reside, 45,3 por cento dos imigrantes refere ter testemunhado «bastantes» casos de discriminação de portugueses contra brasileiros.

O estudo adianta ainda que 34,5 por cento dos inquiridos afirma ter tido conflitos com cidadãos portugueses pelo facto de serem brasileiros.

O desemprego (80,3 por cento) e os baixos salários (75,3 por cento) são os dois principais motivos apontados para justificar a vinda para Portugal.

Quanto ao destino, Portugal foi a primeira escolha para 62,8 por cento dos brasileiros, tendo ainda 29,3 por cento preferido imigrar para os Estados Unidos.

O estudo indica também que a maioria dos brasileiros chegou a Portugal há menos de dois anos (52,8 por cento) e 21,8 por cento está no país há menos de um ano.

Os brasileiros que chegaram a Portugal entre 1998 e 2003 são maioritariamente provenientes dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Goiás.

De acordo com o inquérito, 60 por cento dos brasileiros tem o ensino secundário e 7,3 por cento possui uma licenciatura.

O estudo «A segunda vaga de imigração brasileira para Portugal» é hoje apresentado na Casa do Brasil de Lisboa e insere-se no plano de actividade do Observatório da Imigração, organismo do Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME).

O estudo pretendeu traçar o perfil da segunda vaga de imigração brasileira em Portugal, que possui características sócio-económicas diferenciadas dos brasileiros que chegaram a Portugal até meados da década de 90.

Até essa data, a imigração brasileira era constituída por quadros superiores, profissionais liberais e empresários.

 

Notícia do Portugal Diário, http://www.portugaldiario.iol.pt/noticias/noticia.php?id=322844&sec=3


Nota: O artigo sobre a apresentação pública do estudo encontra-se disponível aqui.