Nascem em Portugal mas sentem-se africanos

Nascem em Portugal mas sentem-se africanos

28-09-2004 13:10, Portugal Diário 

 

Estudo revela que os filhos de imigrantes dos PALOP gostam de Portugal mas consideram-se mais africanos 

Os filhos de imigrantes dos PALOP gostam de Portugal e querem ter nacionalidade portuguesa, mas quando questionados acerca do seu sentimento de pertença consideram-se mais africanos do que portugueses, revela um estudo hoje apresentado em Lisboa. 

"Mais de metade dos jovens inquiridos nasceu em Portugal e tem nacionalidade portuguesa, mas diz sentir-se mais africana do que portuguesa", disse à Agência Lusa Fernando Luís Machado, um dos autores do estudo "Descendentes de Imigrantes Africanos em Portugal - Vínculos Objectivos e Subjectivos de Pertença Nacional".

Falando à margem do II Congresso Português de Demografia, que decorre na Fundação Calouste Gulbenkian, o docente do ISCTE disse ainda que do milhar de jovens inquiridos para o estudo, todos filhos de imigrantes oriundos dos cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, "a grande maioria gosta de viver em Portugal e não tem vontade de ir viver para os países de origem dos pais".

"Mesmo dos cerca de 20 por cento que gostaria de ir viver para esses países, só metade é que diz que o tenciona fazer".

Fernando Luís Machado considera que "todos estes indicadores objectivos e subjectivos apontam para um sentimento de pertença importante: nacionalidade, naturalidade e gosto em viver em Portugal".

"De entre os que não têm nacionalidade portuguesa, uma parte já a pediu e muitos pensam pedi-la", sublinhou.

Contudo, quando questionados acerca dos seus sentimentos de pertença, "muitos dizem sentir-se mais africanos do que portugueses e sentem-se muito pouco europeus".

Para o docente, o facto de se sentirem mais africanos não é "necessariamente uma contradição, uma vez que têm uma dupla referência: o país onde nasceram ou cresceram e os países de origem dos seus pais".

"O sentimento de pertença mais fraco a Portugal está relacionado com o facto de terem ou não cá nascido e terem ou não nacionalidade portuguesa", explicou.

Outro dos motivos são as condições sociais e de classe, uma vez que "jovens de condições mais desfavorecidas sentem-se menos portugueses, enquanto os de classe média e alta sentem-se mais portugueses".

Fernando Luís Machado considera que isso "faz todo o sentido, porque as condições de integração da classe média e alta são melhores".

Para este estudo, foi feito um inquérito a mil jovens, filhos de imigrantes oriundos dos PALOP, com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos e residentes na Área Metropolitana de Lisboa.

O II Congresso Português de Demografia termina quarta-feira, estando prevista a apresentação de temas como a Família, Saúde e Envelhecimento, Ensino e População Activa, e População e Território.

 

Notícia publicada no Portugal Diário, http://www.portugaldiario.iol.pt