Receio de Imigrantes Causado por Motivos Económicos e Raciais

Receio de Imigrantes Causado por Motivos Económicos e Raciais

Por RICARDO DIAS FELNER
Quarta-feira, 19 de Maio de 2004, Jornal Público 

 
As principais razões que levam os europeus, e os portugueses em particular, a sentirem a imigração como uma ameaça têm que ver com situações de fragilidade económica, mas também com "crenças racistas" e com o "conservadorismo sócio-político". É esta a conclusão do investigador Jorge Vala, do Instituto de Ciências Sociais, que estudou os resultados do European Social Survey, um inquérito levado a cabo em 20 países da Europa. 

A análise, que se centrou em 14 países da União Europeia, na sua formação pré-alargamento (a França ficou de fora, por os dados não estarem ainda disponíveis), sustentou-se em três dimensões: a ameaça à segurança, a ameaça económica e a ameaça à identidade cultural. Dimensões essas que se relacionam com outras tantas perguntas: Com a vinda dessas pessoas a criminalidade aumentou ou diminuiu? Essas pessoas fazem com que os salários baixem? Essas pessoas empobrecem ou enriquecem os costumes, as tradições e a vida cultural?

Numa primeira fase, o cruzamento da informação mostrou que as principais ameaças sentidas pelos europeus têm que ver sobretudo com receios securitários e económicos. Mas o autor acabou por acrescentar que a ameaça à identidade cultural constitui também um "importante" factor de oposição à imigração e determina outros receios.

Nomeadamente em Portugal, os resultados indicam o racismo como explicação para o sentimento de ameaça económica e a desintegração social como explicação para a ameaça a segurança.

Outra das conclusões dos dados do inquérito é que a oposição à imigração é uma atitude que não distingue os vários tipos possíveis de imigrantes. Ou seja, as pessoas "não fazem uma distinção elaborada sobre a proveniência da imigração"; não valorizam se ela é da mesma etnia ou raça, ou se é oriunda de países mais pobres ou mais ricos.

 

Portugueses mais abertos a casar com imigrantes

Uma outra leitura do mesmo inquérito, realizada por outros investigadores, veio, no entanto, revelar conclusões que, aparentemente, questionam a imagem da Europa como um espaço hostil aos imigrantes, evidenciando uma "receptividade elevada" à integração social.

A análise de Fernando Machado e de Maria Abranches, do ISCTE - com base no mesmo inquérito, mas focando-se sobretudo nas relações entre autóctones e imigrantes - revela a existência de preocupações de integração dos imigrantes em 20 países da Europa, com Portugal a surgir numa posição intermédia, abaixo da Suécia e da Suíça (os dois mais receptivos) e acima da Hungria e da Grécia (os dois menos receptivos).

Dos dados sobressai também que, no conjunto dos países em análise, "são os mais jovens, os mais escolarizados, os pertencentes à classe social dos profissionais técnicos e de enquadramento, os moradores em grandes cidades e os nascidos fora do país os que mais estabelecem relações de amizade com imigrantes". Os investigadores acrescentam que "são também eles os que aceitam melhor a ideia de terem patrões imigrantes, de verem familiares próximos casarem com imigrantes, bem como a presença de pessoas de minorias étnicas numa zona residencial ideal".

Portugal apresenta, todavia, neste aspecto, uma "considerável irregularidade". Os autores destacam a singularidade de serem os inquiridos menos escolarizados os que têm mais amigos imigrantes, bem como o facto de não existirem diferenças notórias, neste aspecto, entre operários e profissionais mais qualificados.

Quanto à aceitação de patrões imigrantes e de casamentos de familiares próximos com imigrantes, os portugueses estão mais próximos dos casos sueco e suíço do que dos grego e húngaro. A mesma abertura não se nota, contudo, no que se refere à aceitação de pessoas de minorias étnicas em zonas de residência nobres, revelando-se, neste particular, alguma rejeição.

 

Notícia do Jornal Público, http://www.publico.pt


Nota: Mais informações sobre o projecto European Social Survey disponíveis aqui.