1. Olhares académicos sobre jovens descendentes de imigrantes

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1. Olhares académicos sobre jovens descendentes de imigrantes

Expressões como “descendentes de imigrantes”, “filhos de imigrantes” ou “imigrantes de segunda geração” são diferentes aproximações a uma mesma noção que têm coexistido na literatura ao longo do último século, sendo a última a mais recente e de uso menos comum. Os trabalhos de Portes são porventura os mais conhecidos nesta área (e.g., Portes e Zhou, 1993, Portes, 1995). Contudo, alguns autores apontam problemas à designação “imigrantes de segunda geração”. Em primeiro lugar, as pessoas em causa não serão imigrantes mas sim naturais dos países de acolhimento dos pais (Machado, 1994Wacquant, 1999Thomassen, 2010). Em segundo lugar, essas pessoas não constituirão realmente uma geração, podendo duas pessoas de “segunda geração” ter uma diferença de idades de várias décadas (Thomassen, 2010). Em terceiro lugar, essa designação agrega pessoas que não partilham uma identidade ou sequer enfrentam os mesmos desafios (Thomassen, 2010). Em último lugar, mas não menos importante, a designação “segunda geração” subentenderá uma continuidade face aos progenitores que terá de ser objeto de estudo e não presumida como uma essência (Machado, 1994Thomassen, 2010). É ainda de referir que a própria definição de “imigrantes” em geral levanta também dificuldades, sobretudo no quadro das organizações internacionais que se veem face ao desafio de trabalhar com base em definições setoriais e nacionais não harmonizadas. A Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia (FRA), em concreto, tendo constatado essa grande variabilidade, acabou por adotar “imigrantes e seus descendentes” como designação mais abrangente para todos os grupos que são alvo de políticas de integração (FRA, 2017).

Mas apesar de críticas como estas, o termo “imigrantes de segunda geração” permanece de uso comum e dá mesmo origem a derivações. Há autores que se referem a uma geração 1.5, que seria composta por pessoas nascidas no estrangeiro mas que acompanharam a migração das suas famílias quando ainda eram de tenra idade, ou mesmo a um geração 2.5, que seria composta por pessoas com um progenitor autóctone e outro imigrante, e assim sucessivamente (e.g., Rumbaut, Massey e Bean, 2006).

Em Portugal o sistema estatístico e o sistema administrativo apenas classificam as pessoas em função da sua própria nacionalidade (ou, em alguns casos, também a naturalidade). Resulta, assim, que os descendentes de imigrantes são de difícil quantificação devido à sua invisibilidade estatística (e.g., Reiter, 2005; Vasconcelos, 2012).

Neste domínio dos descendentes de imigrantes, uma das questões-chave é a da identidade. Na generalidade da literatura contemporânea sobre o tema, esta não surge como uma essência fixa mas sim como um processo dinâmico de triangulação entre o que estas pessoas retêm da sociedade de origem dos seus ascendentes, o que vão adquirindo da sociedade de acolhimento dos seus ascendentes, e o que assimilam das referências culturais globais a que têm acesso (e.g., Contador, 1998Machado, 2006Ortiz, 2013). No processo de derivar uma identidade com significado a primazia vai para a iniciativa (agency) das pessoas descendentes de imigrantes, que poderão ora proceder à mobilização contra-hegemónica de novas tecnologias para efeitos de expressão e distinção cultural, ora utilizar estrategicamente as referências culturais dos seus ascendentes na resistência à diluição da identidade pela globalização (e.g., Albuquerque, 2000).

No que toca a esta componente subjetiva, a literatura fala amiúde de hibridização ou sincretismo, sendo enfatizado que o sentimento de pertença investido numa identidade não é automaticamente subtraído às demais. Quanto à identificação com Portugal, esta “varia sensivelmente com a origem de classe dos jovens e o seu estatuto social, e também com o local onde nasceram e a nacionalidade que possuem”, ou seja, é explicada sobretudo por fatores sociais e não por fatores culturais (Machado, 2006Machado, 2007a).

Este reconhecimento aos agentes da sua iniciativa permite introduzir uma outra questão chave que é a da participação (política, cívica, cultural, digital, etc.). No que toca às dimensões cívica e política da participação dos descendentes de imigrantes, estudos recentes mostram que embora determinados grupos possam percecionar mais barreiras à participação, porventura em função de discriminação experienciada, “índices elevados de capital cultural podem suplantar desvantagens étnicas”, ou seja, quanto maior o volume de capital cultural dos descendentes de imigrantes menor será a sua perceção de que enfrentarão barreiras à participação (Ribeiro, Neves e Menezes, 2016).

Paralelamente a estes exercícios relativamente autónomos de construção de sentido de si, operam processos de categorização encetados por outros atores sociais. Estes podem, em maior ou menor grau, reduzir as pessoas descendentes de imigrantes a uma alegada essência e conduzir à sua discriminação. Padilla e Ortiz, por exemplo, constatam a existência de um hiato comprometedor, ao nível da construção das identidades, entre os jovens autóctones e os jovens de origem imigrante. Este hiato será, segundo as autoras, devido sobretudo à componente externa do processo de construção identitária. Trata-se, em concreto, do papel da categorização dos jovens de origem imigrante levada a cabo por outros agentes (Padilla e Ortiz, 2014), ou como diz Gomes, referindo-se especificamente ao meio escolar, os jovens são confrontados com “uma identidade étnica contingente, imposta de fora, uma heteroclassificação de difícil resposta” (Gomes, 2014). Nesse sentido, importa recordar que para alguns autores a própria noção de “imigrante de segunda geração” é tendencialmente excludente (e.g., Machado, 2006Thomassen, 2010).

Atendendo a que o capital cultural é sobretudo herdado através das famílias, as posições destas relativamente umas às outras tendem a manter-se ao longo das gerações. Este processo, comumente designado por reprodução social, é problemático ao nível de sociedades que se alinham pelos valores da democracia da igualdade de oportunidades. A instituição com a maior responsabilidade na promoção de convergência ao nível deste recurso é a escola. As visões dos especialistas variam muito em relação ao que os descendentes de imigrantes experienciam e conseguem realizar em contexto escolar. Machado, por exemplo, parte da constatação da semelhança entre as realizações educativas dos filhos de imigrantes e dos autóctones (2007a); da grande diversidade de resultados entre filhos de imigrantes; e da forma como essa diversidade interna é explicada por desigualdades sociais, para concluir que a excessiva ênfase na cultura (no sentido de normas, crenças e valores comuns a um grupo) conduz a uma incompreensão dos fenómenos educativos (Machado, Matias e Leal, 2005). Cardoso, por sua vez, enfatiza precisamente o papel do desfasamento cultural como “promotor silencioso e silenciado do insucesso educativo entre estes jovens” e impedimento ao “reconhecimento e exercício dos direitos e deveres de cidadania” (Cardoso, 2008).

Mas mesmo uma vez controlado o efeito das desigualdades propriamente socioeconómicas (classe social e capital escolar das famílias) podem persistir algumas desigualdades de resultados entre autóctones e descendentes de imigrantes (e.g., taxas de acesso ao ensino superior e no encaminhamento dos filhos de imigrantes para vias profissionalizantes ao longo do ensino básico e secundário, Seabra et al., 2016). Outros fatores, como a duração da presença na sociedade de acolhimento (Hortas, 2013), a marginalização sócio-territorial, o racismo institucional (Roldão et al., 2016), “as baixas expectativas dos docentes” e o domínio da variante do idioma português valorizada em meio escolar (Seabra et al., 2011), têm sido também elencados como potencialmente diferenciadores. Contudo, apesar destes desafios, investigadores como Gomes não encontram indícios de rejeição ativa da norma dominante que, neste caso, será o sucesso escolar (i.e., “cultura oposicional”) mas apenas de um hiato entre as aspirações elevadas dos jovens descendentes de imigrantes e os resultados que efetivamente alcançam (i.e., “paradoxo atitude-realização”) (2014).

Ainda assim, e apesar de haver poucos trabalhos sobre a inserção laboral dos descendentes de imigrantes e esta ser uma área mal conhecida (Cerdeira [coord.], 2013), tais dificuldades não terão impedido uma mobilidade ocupacional ascendente face à geração dos pais (Machado, 2007a) e “pode dizer-se que eles encontraram estruturas de oportunidades suficientes para não reproduzirem em bloco, longe disso, a condição social dos pais, e isso é um bom indicador de integração” (Machado, 2008b). “Quanto à comparação com os jovens em geral, pode concluir-se que as situações e percursos profissionais dos filhos de imigrantes, para condições sociais iguais, não são significativamente diferentes” (Machado, 2008a). Estes resultados mostraram-se robustos mesmo em face da recente crise, tendo Cerdeira e colaboradores concluído que são principalmente as posições estruturais das respetivas famílias, a ditar os seus padrões de inserção profissional. Ou seja, os “jovens imigrantes e descendentes de imigrantes parecem ser afetados por problemas e constrangimentos semelhantes aos de todos os outros jovens da mesma condição social.” (Cerdeira et al., 2013).

É de referir, contudo, que as conclusões destes estudos não serão necessariamente generalizáveis para todos os grupos de origem. Gaspar, por exemplo, refere que os descendentes de imigrantes chineses da chamada geração 1.5 têm “dificuldades de integração na sociedade portuguesa” e que estas “são sentidas, sobretudo, na aquisição da língua portuguesa, na partilha de valores e de comportamentos e, também, na inserção no mercado de trabalho não étnico” (Gaspar, 2018). Acresce que análises que circunscrevam o objeto “descendentes de imigrantes” em função da ascendência estrangeira das pessoas assim categorizadas perderão de vista não apenas a diversidade associada às diversas proveniências dos progenitores mas também a especificidade dos filhos de famílias “mistas” (Gomes, 2014).

Em síntese, os descendentes de imigrantes são um tema de estudo com uma história considerável nas ciências sociais. Ao longo dos anos tem havido debate quanto à delimitação conceptual e empírica desse tema e também quanto à escolha das designações a empregar para as categorias de pessoas delineadas nessa literatura. As questões que se têm colocado sobre as pessoas agrupadas para fins analíticos nessas categorias dizem respeito a assuntos como a construção das suas identidades, a sua participação na sociedade, a sua mobilidade social e ocupacional, o papel que a escola representa nesses processos de mobilidade, e as formas como a sociedade pode promover ou dificultar a sua integração.