Perceções do número de imigrantes

Imagem em Destaque
Perceções do número de imigrantes

Sabia que na maioria dos países europeus há uma perceção sobredimensionada da importância relativa de imigrantes, acreditando-se que no universo de residentes há mais nascidos no estrangeiro do que na realidade existem?

 

Pese embora se verifique alguma subjetividade na forma como se definem e identificam perceções sociais acerca dos fluxos de imigração para diferentes países do mundo e acerca do volume que representa a população imigrante numa dada sociedade de acolhimento, nota-se que essas imagens e estimativas acerca da dimensão da imigração se assumem como um importante indicador sobre a perceção pública acerca da imigração. Persistem em torno da imigração alguns mitos e estereótipos que induzem a erros de perceção e a distorções da realidade - desde logo acerca do quanto representa a população imigrante no total dos residentes de cada país -, mas que rapidamente se conseguem desconstruir com factos baseados em sustentação estatística. 

O inquérito Transatlantic Trends: Mobility, Migration and Integration (2014) - aplicado nos Estados Unidos, Rússia e em onze países europeus, entre os quais Portugal - tem mostrado como em ambos os lados do Atlântico os respondentes tendem a sobrestimar a percentagem da população nascida no estrangeiro que reside no país e/ou a importância relativa da população imigrante no total de residentes no país. Globalmente os inquiridos tendem a percecionar a imigração como sendo um fenómeno social numericamente bastante mais vasto do que o é na realidade. Em média, os respondentes norte-americanos estimam que a população imigrante no seu país ascenda aos 42,1%, quando na realidade não ultrapassa os 13% da população residente nos Estados Unidos da América. Por sua vez os respondentes portugueses estimam que a população nascida no estrangeiro e residente em Portugal alcance os 34,6%, por comparação aos 8,3% de naturais do estrangeiro residentes no país. Entre os países inquiridos, é a Suécia que apresentou maior aproximação entre as estimativas e a realidade: os inquiridos suecos estimavam 18,3% de imigrantes, correspondendo esses efetivamente a 15,1% dos residentes no país (Transatlantic Trends, 2014: 16).

De forma semelhante, no Inquérito Social Europeu (ESS), nas suas edições de 2002/2003 e 2014/2015, no módulo de imigração, a pergunta acerca da estimativa que os inquiridos fazem da população imigrante no país – Out of every 100 people living in [country] how many do you think were born outside [country]? -, variando as respostas entre zero e cem, permite identificar os mesmos erros de perceção. A comparação dos resultados dos 19 países em comum nos dois momentos da aplicação desta questão do módulo sobre imigração do ESS permite promover uma análise longitudinal das perceções, devendo reconhecer-se ainda assim que a realidade (factual) da imigração também mudou ao longo dos doze anos em análise, tal como as políticas de integração de imigrantes promovidas nesses países e a sensibilidade ou o conhecimento das populações autóctones acerca do tema.

De 2002 para 2014, na perceção da generalidade dos inquiridos do inquérito social europeu verifica-se um aumento da importância relativa da população imigrante entre os residentes, reforçando-se por inerência a distância face à efetiva realidade da imigração em cada país europeu. As exceções observam-se nos resultados da França, Hungria e Israel, que são os únicos países onde se observa de 2002 para 2014 uma diminuição da percentagem percecionada (em média) de imigrantes no total de residentes do país. Na generalidade dos países onde foi aplicada a questão há a perceção de que os nascidos no estrangeiro representam mais de 10% do total de residentes (exceção para a República Checa, Polónia e Finlândia), verificando-se um conjunto de países onde a perceção é de representam mais de um quarto do total de residentes (e.g. França, Reino Unido, Bélgica, Suíça e Áustria).


Fonte: European Social Survey - ESS (Cálculos e sistematização da informação da Equipa OM).


Fonte: European Social Survey - ESS (Cálculos e sistematização da informação da Equipa OM) e Eurostat para dados
dos foreign-born por país.


Entre os países que participaram no ESS de 2002, Portugal surgia - juntamente com a França, Reino Unido, Holanda e Bélgica - como exemplo de país onde a perceção mais se afastava da realidade. O mesmo se voltava a observar em 2014, mantendo-se (ou reforçando-se mesmo) a distância entre as perceções em torno da importância relativa de imigrantes no total de residentes e a realidade nos vários países europeus, persistindo a tendência de se verificar que na perceção dos europeus os imigrantes são mais do que na realidade o são.

Portugal está entre os países onde a inquirição de 2014 do ESS resultou num agravamento da distância entre a perceção do volume da imigração na sociedade e a efetiva realidade: em 2002 a distância entre a perceção e a realidade era de cerca de 15 pontos percentuais, passando em 2014 para 17 pontos percentuais.

É, pois, evidente que as perceções sociais tendem a sobrestimar a realidade da imigração, não apenas em Portugal, como na maioria dos países da União Europeia. Porém, a realidade que os dados estatísticos e administrativos disponíveis evidenciam é outra bem diferente, e que importa analisar.