Destaque Estatístico OM: Trabalhadores por conta própria imigrantes na UE

Destaque Estatístico OM: Trabalhadores por conta própria imigrantes na UE

Recorrendo a dados dos inquéritos ao emprego dos vários países europeus e publicados pelo EUROSTAT, identifica-se que as taxas de empreendedorismo (trabalhadores por conta própria por total de ativos) não são homogéneas nos vários países europeus e a importância relativa de empresários imigrantes no total de empresários de cada país é variável. Verifica-se ainda que as taxas de empreendedorismo são oscilantes em função do país de nascimento do empresário: há países onde os autóctones apresentam taxas de empreendedorismo mais elevadas que os nascidos no estrangeiro, tal como há países onde os nascidos no estrangeiro se destacam com taxas de empreendedorismo mais elevadas quando comparadas com os nativos.

 

Sabia que o trabalho por conta própria aumentou de forma expressiva entre os nascidos no estrangeiro residentes nos países da UE28, quando decresceu para os nativos da UE28, representando os imigrantes cada vez mais importância relativa no total de empregadores dos países europeus?

 

Globalmente, no conjunto dos países da União Europeia (UE), o trabalho por conta própria (TCP) aumentou de forma expressiva entre os nascidos no estrangeiro, quando decresceu para os nativos: entre 2008 e 2018 o número de trabalhadores por conta própria nativos diminuiu 6% (de 28,4 milhões para 26,7 milhões), quando aumentou no caso dos estrangeiros (+31,1%), tanto entre nascidos em países fora da União Europeia (+58,9%, passando de 1,4 milhões para 2,2 milhões) como entre migrantes nascidos noutro Estado-membro da UE (+74,8%, passando de 0,8 milhões para 1,3 milhões).

 

Percentagem de Nascidos no Estrangeiro no total de Trabalhadores por Conta Própria com idades entre 20 e 64 anos, no conjunto dos 28 Estados-membros da União Europeia, 2005 a 2018

Fonte: Oliveira (2019, p. 71) a partir de dados do EUROSTAT (Migrant integration statistics – employment conditions).

 

Na maioria dos países da UE28 a percentagem de nascidos no estrangeiro aumentou no universo de trabalhadores por conta própria ao longo da última década, embora a sua importância relativa tenha variado bastante entre Estados-membros: em 2018 os nascidos no estrangeiro representaram entre 0,9% na Polónia e 59,2% no Luxemburgo (em Portugal representavam 10,1%) no total de TCP. Nesse ano os TCP nascidos no estrangeiro representavam 11,7% do total de TCP da UE28, destacando-se entre os países com maior percentagem de nascidos no estrangeiro no total de TCP, por ordem de importância relativa: o Luxemburgo (59,2%), Malta (26%), Reino Unido (20,1%), Suécia (19,4%), Chipre (18,9%), Irlanda (18,8%), Alemanha (18,3%), Bélgica (17,5%) e Dinamarca (17,1%). Por contraste, entre os países onde os nascidos no estrangeiro assumiram menor importância relativa no total de TCP do país, destacaram-se em 2018 a Polónia (0,9%), Bulgária (1%), Eslováquia (1,2%), Hungria (2,7%), Grécia, Lituânia (3,7%) e República Checa (6,3%).

 

Percentagem de trabalhadores por conta própria nascidos no estrangeiro por total de trabalhadores por conta própria, por país da UE28, em 2018

Fonte: Oliveira (2019, p. 74) a partir de dados do EUROSTAT (Migrant integration statistics – employment conditions).

 

Na última década, entre 2008 e 2018, os aumentos da importância relativa de nascidos no estrangeiro no total de trabalhadores por conta própria foram mais significativos no Luxemburgo (+17,3pp), em Malta (+18,9pp), na Irlanda (+6,5pp), na Dinamarca (+6,4pp), na Suécia (+5,9pp) e no Reino Unido (+5,8pp). Em Portugal o crescimento foi de +3,6pp.

 

Embora o aumento da importância relativa de nascidos no estrangeiro no total de trabalhadores por conta própria acompanhe em parte o aumento generalizado da população nascida no estrangeiro no total de residentes nos vários Estados-membros entre 2008 e 2018, verifica-se que o aumento de trabalhadores por conta própria tem sido mais substantivo. No Luxemburgo o crescimento da importância relativa de nascidos no estrangeiro no total de trabalhadores por conta própria (+17,3pp) foi mais expressivo que o crescimento da percentagem de nascidos no estrangeiro no total de residentes no país (+14,3pp), verificando-se o mesmo em Malta (+18,99pp versus +10,1pp), na Dinamarca (+6,4pp versus +3,1pp), na Suécia (+5,9pp versus +4,7pp), no Reino Unido (+5,8pp versus +3,3pp), na Áustria (+5pp versus +4,1pp) e em Portugal (+3,6pp versus +0,8pp). Identificam-se, porém, simultaneamente, países onde o aumento relativo de nascidos no estrangeiro foi superior no total de residentes por comparação ao verificado no total de trabalhadores por conta própria (e.g. na Croácia os nascidos no estrangeiro no total de residentes aumentaram +12,9pp, tendo a importância relativa de trabalhadores por conta própria só crescido +1,9pp; o mesmo se verificou na Alemanha +5pp versus 4,2pp).

 

A percentagem de nascidos no estrangeiro no total de trabalhadores por conta própria nos vários países da UE28 não é uniforme em função do país de nascimento: na maioria dos Estados-membros são os extracomunitários que representam mais no total de trabalhadores por conta própria dos países, embora em alguns países os nascidos em outros Estados-membros da UE28 representem mais no total de trabalhadores por conta própria. Em 2018, os migrantes nascidos em outro Estado-membro da UE28 representavam metade do total de trabalhadores por conta própria do Luxemburgo (50%) e 13,4% na Irlanda; quando, em contraste, os cidadãos extracomunitários eram mais que os migrantes da UE28 no total de trabalhadores por conta própria na maioria dos Estados-membros, com destaque para a Suécia (13,1% por comparação a 6,3% de cidadãos de outro Estado-membro) e o Reino Unido (12,2% por contraste a 7,8% de cidadãos UE).

 

Sabia que na última década aumentou a taxa de empreendedorismo de nascidos fora da UE28, quando decresceu para os nativos da UE28?

 

Na última década, no conjunto dos 28 países da União Europeia (UE28), aumentou também a percentagem de trabalhadores por conta própria no total da população ativa para os nascidos fora da União Europeia, em especial entre 2008 e 2016 (+2 pontos percentuais, de 11,9% a taxa de empreendedorismo passou para 13,9%), embora desde 2017 apresentem uma evolução decrescente (12,4% em 2017 e 12,1% em 2018). Esta evolução da taxa de empreendedorismo dos cidadãos extracomunitários contrasta com a evolução da taxa de empreendedorismo dos nativos (que decresceu de 14,9% para 14,0% entre 2008 e 2018, -0,9pp) e nos cidadãos nascidos em outro Estado-membro (que diminuiu de 13,5% em 2008 para 12.5% em 2018, -1pp, embora tenha crescido até 2013, ano em que atinge um pico de 15,3%).

 

Verifica-se ainda que na última década a evolução das taxas de empreendedorismo entre nascidos no estrangeiro não é generalizada nos países europeus. Observam-se tantos países onde a importância relativa de trabalhadores por conta própria no total de ativos aumentou (e.g. +4,2pp na Holanda, +4,1pp na República Checa, +3,5pp na Grécia, +3,1pp na Espanha, +2,1pp no Luxemburgo, +1,8pp no Reino Unido), como países onde essa percentagem diminuiu entre 2008 e 2018 (e.g. -7,4pp na Croácia, -3,4pp em Chipre, -2,9pp na Itália, - 1,8pp na Suécia, -1,7pp em Malta, -1,3pp na Alemanha e na Bélgica) ou países que mantiveram relativamente estável a taxa de empreendedorismo de nascidos no estrangeiro (e.g. -0,2pp em Portugal).

 

Globalmente nota-se, porém, que ao longo da última década, no conjunto dos países da UE28, os nativos têm assumido taxas de empreendedorismo superiores aos ativos nascidos no estrangeiro: em 2018 os nativos apresentavam cerca de +1,9pp que os nascidos fora da UE28 e +1,5pp que os nascidos em outro país da UE28, tendo 2016 sido o ano em que os nascidos no estrangeiro mais aproximaram as suas taxas de empreendedorismo dos nativos dos respetivos países UE28 (nesse ano os nativos assumiram uma taxa de 14,4%, seguidos pelos nascidos noutro Estado-membro da UE28 com 14% e pelos nascidos fora da UE28 com 13,9%).

 

Percentagem de Trabalhadores por conta própria por total da população ativa com idade entre 20 e 64 anos (taxa de empreendedorismo), segundo o país de nascimento, na UE28, entre 2008 e 2018

Fonte: Oliveira (2019, p. 71) a partir de dados do EUROSTAT (Migrant integration statistics – employment conditions).

 

Constata-se que, em média, 12,2% dos nascidos no estrangeiro que residem em Estados-membros da UE28 têm atividade por conta própria. Em 2018, as maiores taxas de empreendedorismo de nascidos no estrangeiro registaram-se na Bulgária (25,4%), na República Checa (24,6%), na Polónia (22%), Eslováquia (20,8%), Malta (17,1%), Holanda (16,5%) e Reino Unido (15,8%). Os restantes países não distam mais do que cinco pontos percentuais, a mais ou a menos, da média da UE28. Portugal situa-se em 2018 um ponto percentual acima da média (+1,2pp), com uma taxa de empreendedorismo de nascidos no estrangeiro de 13,4%. Os países com as mais baixas taxas de empreendedorismo de nascidos no estrangeiro em 2018 foram o Luxemburgo (7,7%), Áustria (8,1%), Suécia (8,3%), Estónia (8,6%) e Alemanha (8,8%).

 

Taxa de empreendedorismo* de nascidos no estrangeiro, por país da UE28, em 2018

Fonte: Oliveira (2019, p. 74) a partir de dados do EUROSTAT (Migrant integration statistics – employment conditions).
*Percentagem de trabalhadores por conta própria no total de ativos.

 

Deve considerar-se que nem todos os contextos recebem o mesmo perfil de imigrantes, nem o mesmo volume de população imigrante. Verifica-se que há algumas nacionalidades que apresentam mais iniciativa empresarial em contextos de acolhimento do que outras. Ora a dispersão destas nacionalidades não é equitativa pelos países, tendo-se verificado em Portugal, por exemplo, ao longo das últimas décadas uma maior concentração de estrangeiros de nacionalidades menos propensas à iniciativa empresarial do que o verificado em outros países do norte europeu. Acresce que o facto de se verificar mais baixas taxas de empreendedorismo entre imigrantes nos países da Europa do Sul é indissociável da experiência de imigração destes países ser mais recente e dos imigrantes responderem às necessidades de trabalho manual das economias desses países, e ainda não terem tido tempo suficiente para reunir o necessário capital humano e social para criar um negócio.

 

Sabia que em 2018 havia em Portugal mais trabalhadores por conta própria nascidos no estrangeiro do que seria de esperar face à proporção de nascidos no estrangeiro no total da população residente?

 

As aparentes baixas importâncias relativas de empresários imigrantes no total de empresários em países como Portugal, podem na realidade refletir impactos relevantes quando se compara com a importância relativa de imigrantes no total de residentes, ou seja, quando a percentagem de empresários imigrantes aparentemente reduzida é superior ao peso da população imigrante no total de residentes. Nesses casos, então na realidade, a iniciativa empresarial imigrante assume uma expressão para além do esperado. Em Portugal os nascidos no estrangeiro representam 8,8% no total de residentes, mas significam 10,1% no total de trabalhadores por conta própria do país, logo +1,3pp do que o esperado, quando a relação na UE28 nesse ano foi de zero (0pp, ou seja, a percentagem de nascidos no estrangeiro no total dos residentes é um bom indicador da percentagem de pessoas da mesma categoria na totalidade dos TCP).

 

Em 2018 em apenas cerca de metade dos Estados-membros da UE28 se identifica que os imigrantes assumem maior importância relativa no total de trabalhadores por conta própria no país que no total de residentes, com destaque para o Luxemburgo (+12,7%), Malta (+8,5%), Reino Unido (+5,7%) e Dinamarca (+5,2%); contrastando com o grupo de países onde os imigrantes assumem um peso menor do que o esperado no total de trabalhadores por conta própria face à importância que detêm no total de residentes, destacando-se nesse grupo os países de imigração mais recente ou de entrada mais tardia na UE28 (e.g. Estónia com -7pp; Letónia com -3,9pp; Hungria com -2,8pp; Eslovénia -3,3pp, Eslováquia -2,3pp), embora se identifiquem também outros países mais antigos na UE28 e de maior fluxo de imigração (e.g. Áustria -3,1pp, Holanda -1pp) ou onde a atividade empresarial entre os nativos é mais expressiva que faz reduzir o seu impacto por comparação aos residentes (e.g. Grécia com -8,4pp).

 

Diferença entre percentagem de trabalhadores por conta própria nascidos no estrangeiro e a percentagem de residentes nascidos no estrangeiro, por país da UE28, em 2018

Fonte: Oliveira (2019, p. 74) a partir de dados do EUROSTAT (Migrant integration statistics – employment conditions).